Tecnologia monitora transmissão de calor em frutas e ajuda a reduzir perdas na pós-colheita
- Solano Ferreira
- 22 de fev.
- 4 min de leitura
Foto: Daniel Terao

Uma inovação brasileira busca reduzir as perdas na pós-colheita de frutas, que chegam a alarmantes 80% em algumas espécies. A Embrapa Meio Ambiente (SP) apresentou um dispositivo que permite acompanhar, em tempo real, como o calor é distribuído dentro das frutas durante o tratamento hidrotérmico. Essa técnica é essencial para garantir a eficiência no controle de doenças após a colheita e preservar a qualidade das frutas, atendendo às exigências dos mercados internacionais.
Segundo o pesquisador Daniel Terao , criador do dispositivo, o tratamento térmico não só elimina microrganismos específicos como também fortalece a defesa natural das frutas. “O calor provoca mudanças bioquímicas e físicas que protegem os frutos, como o fechamento de microferidas na camada de cera, evitando a entrada de fungos oportunistas”, explica.
A inovação no combate às perdas
O novo dispositivo é uma peça-chave para validar o tratamento hidrotérmico em larga escala. Ele mede como o calor se distribui da superfície até a polpa das frutas, garantindo que a temperatura aplicada seja suficiente para eliminar patógenos sem causar danos à qualidade do produto. “Sem o monitoramento adequado, há o risco de a fruta sofrer danos qualitativos, como mudanças na textura e no sabor”, alerta Terao. A tecnologia também facilita o cumprimento de padrões internacionais de sanidade e qualidade, essenciais para manter o Brasil como um dos maiores exportadores de frutas do mundo.
O dispositivo é utilizado para estudos de transmissão de calor durante o tratamento hidrotérmico por aspersão de água aquecida sobre frutas em movimento giratório. Ele é composto de um registrador eletrônico de dados, que fica protegido no interior do recipiente. A fruta é colocada em um espaço de adaptação ajustável, sendo então conectados sensores de temperatura (termopares) com uma ponta de prova inserida na fruta em diferentes profundidades e uma outra ponta conectada ao registrador eletrônico de dados, permitindo o acompanhamento da transmissão de calor ao longo da fruta, em tempo real, durante o tratamento hidrotérmico. Com isso, é possível ajustar a temperatura do tratamento térmico para não prejudicar a qualidade das frutas.

Perdas pós-colheita: um desafio nacional
O Brasil, maior exportador global de suco de laranja e destaque na produção de frutas como manga, melão e mamão, enfrenta um sério problema: as perdas pós-colheita. Devido ao transporte inadequado, falta de refrigeração e tratamentos ineficazes, toneladas de frutas são descartadas anualmente.
Entre as doenças que podem afetar as frutas na pós-colheita estão as manchas necróticas e podridões causadas pelo fungo Neofusicoccum parvum ; perdas graves devido ao Fusarium pallidoroseum ocorrem em melão, durante o transporte e o armazenamento; e nos citros o mofo verde e outras infecções comprometem a cadeia produtiva. Essas doenças são baseadas na qualidade e na quantidade de frutas disponíveis, impactando diretamente a economia nacional e a competitividade das exportações brasileiras.
Sustentabilidade em foco
Uma pesquisa da Embrapa aponta o tratamento hidrotérmico ( foto abaixo ) como uma solução sustentável para o controle de doenças pós-colheita. Essa técnica utiliza aspersão de água quente sobre escovas rolantes para desinfestar as frutas e ativar seus mecanismos naturais de defesa.
Com o aumento das restrições ao Limite Máximo de Resíduos (LMR) de agrotóxicos em mercados internacionais, como União Europeia e Estados Unidos, o setor frutícola brasileiro busca alternativas menos químicas e mais sustentáveis.
Além disso, os microrganismos que atacam frutas muitas vezes produzem micotoxinas, substâncias que tornam os alimentos impróprios para consumo humano. Frutas como mamão e melão, por serem mais suculentas, são especialmente vulneráveis a esses agentes.

Em busca de parceiros
O pedido de patente do dispositivo foi depositado, marcando um passo importante para sua aplicação comercial. No entanto, os desafios ainda precisam de ser superados, como a adaptação da tecnologia para diferentes tipos de frutas e a integração com métodos biológicos de controlo. Para isso a Embrapa procura um parceiro privado para finalizar o produto e levá-lo ao mercado. As empresas interessadas podem entrar em contato pelo e-mail: cnpma.spat@embrapa.br
Os pesquisadores acreditam que, com o uso de tecnologias semelhantes a essa, o Brasil poderá reduzir significativamente as perdas pós-colheita, fortalecer sua competitividade internacional e adotar práticas agrícolas mais alinhadas às demandas globais de sustentabilidade.
Desperdício de alimentos atinge quase um terço da produção mundial
O desperdício global de alimentos continua sendo um dos maiores desafios ambientais e sociais da atualidade. Anualmente, cerca de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados, o que representa 30% de toda a produção mundial. Frutas, vegetais e tubérculos estão entre os alimentos mais descartados, muitas vezes devido a questões de aparência que não comprometem sua segurança ou qualidade nutricional. Esses desperdícios não implicam apenas perdas econômicas, eles também agravam problemas ambientais, como o uso excessivo de água, terras e energia, além de contribuir para emissões significativas de gases de efeito estufa ( PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente , FAO ).

Além disso, a maior parte dessas perdas ocorre durante as fases de produção, transporte e armazenamento, enquanto os resíduos relacionados ao consumo representam uma proporção menor, mas ainda significativa. Para mitigar esses resultados, há esforços globais alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em particular o ODS 12.3, que busca reduzir pela metade o desperdício per capita de alimentos até 2030. A FAO, em conjunto com parceiros internacionais, trabalha para medir e monitorar os progressos em nível global, além de implementar campanhas de conscientização como a #SemDesperdício no Brasil (ONU e FAO).
Estudos recentes também destacam que os consumidores estão cada vez mais dispostos a comprar alimentos com aparência imperfeita, desde que sua segurança e sabor sejam garantidos. Isso tem motivado campanhas e iniciativas para mudar os padrões de consumo e reduzir os descartes desnecessários nas redes de varejo ONU e FAO).
Cristina Tordin (MTb 28.499/SP) - Embrapa Meio Ambiente
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