O Saara está ficando verde, e isso poderia (re)mudar nosso clima
- Solano Ferreira
- 4 de dez. de 2024
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A mera menção ao Saara frequentemente evoca a imagem de um deserto imutável, hostil e preso à sua aridez. No entanto, há vários milênios, essa região apresentava um cenário completamente diferente, com paisagens verdes que se estendiam por quilômetros, transformando o deserto em um local onde a vida florescia.
Entre 11.000 e 5.000 anos antes da nossa era, durante o Holoceno, mudanças na órbita terrestre aumentaram a quantidade de radiação solar durante o verão boreal. Essa variação astronômica, combinada com uma intensificação das monções na África, criou condições mais úmidas, favorecendo o aparecimento de arbustos perenes em parte do Saara.
Simulações numéricas recentes, publicadas em Climate of the Past, revelam que essa "vegetação" do Saara influenciou profundamente o clima no hemisfério norte. Pesquisadores, liderados pelo Dr. Marco Gaetani, observaram alterações atmosféricas se estendendo muito além do continente africano.
Um dos mecanismos identificados envolve o deslocamento da circulação de Walker, um sistema de loops de ar que regula os fluxos atmosféricos nos trópicos. Esse deslocamento para o oeste reorganizou os jatos de ar, especialmente no Atlântico Norte, intensificando sua atividade no verão e alterando suas trajetórias no inverno.
Essa transformação teve efeitos climáticos variados. A Europa Ocidental experimentou invernos mais frios e verões mais quentes, enquanto a Europa Central aqueceu durante todo o ano. No Mediterrâneo, os verões tornaram-se mais secos, enquanto a Ásia Central recebeu mais precipitações.

Outro fator crucial foi a redução das emissões de poeira desértica, diminuídas em 80%. Com uma superfície mais escura devido à vegetação, o albedo do Saara caiu de 0,30 para 0,15, amplificando o aquecimento tropical e favorecendo a reciclagem da água na atmosfera.
Essa vegetação remodelou não apenas as terras, mas também influenciou os oceanos, afetando oscilações como a do Atlântico Norte, conhecida por seu papel na regulação das pressões atmosféricas e das precipitações nos continentes vizinhos.
Hoje, os pesquisadores se perguntam sobre os paralelos com as mudanças contemporâneas. Sob o efeito das mudanças climáticas, parece que o Saara está recuperando áreas verdes. Corredores vegetados estão surgindo, transformando o ecossistema e oferecendo novas oportunidades para a biodiversidade em uma região há muito considerada estéril.
Essas observações reforçam a ideia de um Saara dinâmico, onde interações complexas entre o clima, a vegetação e as atividades humanas continuam a moldar o futuro desse deserto.
Fonte: Techno Science
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